SAÚDE E PREVENÇÃO

Mulheres têm de pagar até R$ 3 mil por vacina contra HPV na rede privada

Especialistas alertam para importância da vacinação na prevenção do câncer de colo do útero enquanto debate sobre ampliação da faixa etária segue em discussão no Brasil
Clinica Croce

A vacina contra o HPV passou a ser oferecida pelo Sistema Único de Saúde em 2014, inicialmente para crianças e adolescentes de 9 a 13 anos. Depois, a faixa etária foi ampliada até 14 anos e incluiu grupos como pessoas imunossuprimidas, vítimas de violência sexual, pacientes com papilomatose respiratória recorrente e usuários de PrEP.

Como parte de campanha para ampliar a cobertura, o Ministério da Saúde passou a oferecer temporariamente a vacina também a jovens de 15 a 19 anos até junho deste ano.

O imunizante aplicado na rede pública é o quadrivalente, que protege contra quatro tipos do vírus, incluindo dois de maior risco para câncer.

Casos fora da faixa etária

Quando a vacina começou a ser oferecida, Paula Vilela havia acabado de completar 14 anos e não conseguiu se imunizar na escola por estar fora da faixa contemplada à época. Hoje, aos 26 anos, afirma que recebeu recomendação médica para se vacinar, mas não conseguiu arcar com o custo.

Na rede privada, a vacina nonavalente, que protege contra nove tipos do vírus e cobre cerca de 90% dos casos de câncer relacionados ao HPV, custa entre R$ 800 e R$ 1.000 por dose. Para adultos, são indicadas três aplicações.

Letícia Campos, 28, afirma que deseja se vacinar há anos, mas o valor total das três doses equivale a cerca de um mês de salário e supera o aluguel que paga em Salvador.

Incidência e projeções

O câncer de colo do útero é o que mais mata mulheres de até 35 anos no Brasil, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer referentes ao período de 2014 a 2024. A doença é causada pelo HPV e pode ser prevenida pela vacinação.

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O Inca estima aumento de 14% na incidência até 2028, com mais de 19 mil novos casos por ano. O dia 4 de março marca o Dia Internacional de Conscientização sobre o HPV.

A vacina tem indicação em bula para mulheres de até 45 anos. Há mais de 200 tipos de HPV identificados, sendo 14 considerados de alto risco oncogênico.

Diagnóstico e recomendação médica

Michele Lima, 28, descobriu há três anos que tinha HPV. Exames identificaram três tipos do vírus, além de lesão no colo do útero. A ginecologista indicou a vacina nonavalente como forma de proteção adicional. Cada dose custou cerca de R$ 900, e ela precisou viajar para se vacinar, pois o imunizante não estava disponível em Dom Feliciano, no Rio Grande do Sul, onde mora.

Médicos relatam que o preço é um dos principais obstáculos para a adesão de adultos. Jorge Elias Neto, ginecologista do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente, afirma que o valor médio de R$ 3 mil dificulta a decisão de pacientes, inclusive em regiões de classe média.

Posição do governo e sociedades médicas

O Ministério da Saúde informou que a definição da faixa etária no SUS segue critérios técnicos, epidemiológicos e de sustentabilidade, e considera maior eficácia da vacina antes do início da vida sexual.

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A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia publicou revisão destacando que uma geração de mulheres chegou à idade adulta sem acesso à vacinação. A entidade afirma que, enquanto a cobertura entre adolescentes não for universal, é indicado recomendar a imunização de mulheres adultas.

A recomendação também se estende a homens adultos, já que o HPV está associado a câncer de pênis, canal anal e orofaringe. Em 2024, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária incluiu na bula da vacina nonavalente a prevenção do câncer de orofaringe.

Debate sobre ampliação

Sociedades médicas defenderam, em reuniões do Comitê Técnico Assessor de Imunização, a inclusão no Programa Nacional de Imunizações de mulheres submetidas a cirurgia por lesões avançadas causadas pelo HPV.

A infectologista Rosana Richtmann, do Instituto Emílio Ribas e coordenadora do Comitê de Imunizações da Sociedade Brasileira de Infectologia, afirma que a vacinação nesses casos reduz o risco de retorno da doença e protege contra tipos do vírus aos quais a paciente ainda não foi exposta.

Especialistas avaliam que a ampliação do público-alvo até 45 anos, como previsto em bula, enfrenta limitações orçamentárias diante do tamanho da população brasileira. Ainda assim, médicos reforçam que a proteção conferida pelas três doses pode durar ao menos 15 anos.

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