CRISE NA HEVEICULTURA

Crise na produção de borracha natural ameaça sustentabilidade da cadeia no Brasil

Brasil produz menos da metade do que consome e produtores operam no prejuízo diante de importações, falta de contratos e ausência de políticas públicas estruturantes
Enquanto a indústria de pneus discute estratégias para conter o avanço das importações e recuperar as vendas no mercado interno, uma crise silenciosa se aprofunda no campo. Produtores e sangradores de seringueira enfrentam preços defasados, ausência de contratos formais e falta de políticas públicas estruturantes, comprometendo a viabilidade da produção nacional de borracha natural e colocando em risco um setor estratégico para a economia brasileira.
Brasil produz menos da metade da borracha que consome

Atualmente, o Brasil produz cerca de 40% da borracha natural utilizada pela indústria, dependendo do mercado externo para suprir a demanda. Apesar de sua associação direta com o setor automotivo, a borracha natural é matéria-prima essencial para diversos segmentos, com importância econômica, social e até estratégica.

A produção nacional, porém, exige planejamento de longo prazo. Um seringal leva até dez anos para iniciar a sangria e pode gerar renda por mais de três décadas.

“Se faltar borracha e decidirmos plantar hoje, o país só verá resultado daqui a uma década”, alerta Antonio Carlos Carvalho Gerin, presidente da Câmara Setorial da Borracha.

Segundo ele, a autossuficiência é uma questão estratégica: a falta de matéria-prima pode comprometer cadeias industriais inteiras.

Atividade garante emprego no campo e captura de carbono

Além da relevância econômica, a heveicultura tem peso social e ambiental. A atividade gera emprego contínuo em áreas rurais, oferecendo estabilidade para trabalhadores de baixa qualificação técnica.

“Um sangrador pode trabalhar no mesmo seringal por décadas. É uma atividade que fixa pessoas no campo e gera renda estável”, ressalta Gerin.

Do ponto de vista ambiental, a seringueira é altamente eficiente na captura de carbono, podendo superar biomas nativos em algumas regiões — um diferencial em tempos de crescente pressão por sustentabilidade no agronegócio.

Leia Também:  Brasil reforça diversificação de mercados em fevereiro
Estrutura de mercado desequilibrada prejudica o produtor

De acordo com a Câmara Setorial, o desequilíbrio começa na organização da cadeia produtiva, composta por três elos principais: produtores, usinas intermediárias e indústria consumidora, dominada pelo setor pneumático.

Com cerca de 60% da borracha importada, as indústrias firmam contratos anuais de compra no exterior. Quando há queda nas vendas de pneus, a borracha importada continua chegando, e a nacional deixa de ser adquirida — derrubando os preços pagos aos produtores.

“Ou o produtor vende a um preço muito baixo ou não ganha nada”, explica Gerin.

Hoje, o custo médio de produção do látex é de R$ 6,50 por quilo, enquanto o valor pago ao produtor fica em torno de R$ 3,84 — menos de 60% do necessário para cobrir os custos.

Concentração do mercado limita poder de negociação

A concentração das usinas também agrava o problema. Cerca de 10 a 12 unidades compram 90% da produção nacional, reduzindo o poder de negociação dos produtores. Sem contratos formais ou índices de referência, os preços são impostos unilateralmente.

“Não há regra nem índice. Se amanhã o comprador decidir pagar menos, ele paga”, denuncia o dirigente.

Políticas públicas deixaram de proteger o setor

Até 2008, o setor contava com um decreto federal que impedia que a borracha nacional fosse vendida a preço inferior ao importado, além de prever incentivos à produção. A norma, no entanto, perdeu validade e nunca foi renovada.

Desde então, a formação de preços passou a favorecer a indústria, em detrimento do produtor rural. Paralelamente, medidas de proteção adotadas pelo governo se concentram nos produtos industrializados, como pneus, que hoje pagam tarifas de importação de até 25%.

“Em um pneu de caminhão que custa mais de R$ 3 mil, a borracha natural representa cerca de 20 kg. Um reajuste na matéria-prima não gera inflação, mas faz enorme diferença para quem produz”, explica Gerin.

Êxodo rural e impacto social crescente

Com margens cada vez menores, muitos produtores estão abandonando a atividade. A Câmara Setorial estima que o setor já perdeu entre 30% e 40% da mão de obra, com sangradores migrando para centros urbanos em busca de sustento.

Leia Também:  Ponte do Córrego Fundo tem estrutura comprometida e será demolida

Essa migração provoca pressão sobre serviços públicos nas cidades — como saúde, educação e assistência social — e acentua o esvaziamento das áreas rurais.

“No campo, essas famílias têm moradia e renda. Na cidade, muitas vezes, não têm alternativa”, lamenta Gerin.

Falhas na fiscalização ampliam desigualdade ambiental

O setor também critica a falta de fiscalização das normas ambientais e trabalhistas aplicadas aos produtos importados. Embora a legislação brasileira exija equivalência de padrões, estudos apontam condições precárias em países exportadores, criando uma assimetria competitiva que prejudica o produtor nacional.

Proposta de comitê gestor para equilibrar a cadeia

Diante do cenário, a Câmara Setorial da Borracha propõe a criação de um comitê gestor envolvendo diferentes ministérios — Agricultura, Indústria e Comércio, Fazenda, Relações Exteriores, Meio Ambiente e Defesa — com o objetivo de estabelecer regras claras para o setor.

“O setor não é contra a indústria nem contra a importação. O que defendemos é uma gestão justa, que considere os impactos sociais, ambientais e econômicos de toda a cadeia”, afirma Gerin.

Ele alerta que, sem uma política de equilíbrio, o país pode perder sua base produtiva e aumentar a dependência externa de uma matéria-prima considerada estratégica.

 

Deixe um comentário

Compartilhe essa Notícia

publicidade

publicidade

CRISE NA HEVEICULTURA

Crise na produção de borracha natural ameaça sustentabilidade da cadeia no Brasil

Brasil produz menos da metade do que consome e produtores operam no prejuízo diante de importações, falta de contratos e ausência de políticas públicas estruturantes

Deixe um comentário

Compartilhe essa Notícia

publicidade

publicidade